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A imagem como aliada na educação

1 de abril de 2020 Ouvir o texto

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Por Antonio Sagrado

No mundo contemporâneo, vivemos as relações a partir de transações. Nessa maneira de nos relacionarmos, as narrativas têm um valor fundamental, pois geram e mantêm espaços de poder.

Dos nossos diálogos com pessoas próximas às negociações diplomáticas na política e no mercado, tudo se baseia em trocas simbólicas ou explícitas.

Uma imagem também é uma forma de narrar histórias — seja uma imagem estática (um quadro, uma fotografia, uma figura ou um símbolo) ou uma imagem em movimento, como um vídeo ou um filme. O poder narrativo das imagens é muitas vezes maior do que qualquer outra forma de narração.

"A Última Ceia", Leonardo da Vinci (1495-1498)

“A Última Ceia”, Leonardo da Vinci (1495-1498)

No quadro “A última ceia”, de Leonardo da Vinci, por exemplo, há uma infinidade de referências e símbolos, bem como representações e dimensões matemáticas que comunicam diversas coisas, além do próprio fato de representar a cena bíblica.

A fotografia que mostramos a seguir, em que o ex-presidente Lula é carregado por seus apoiadores no momento de sua prisão em 2018, tem um valor simbólico muito grande porque reflete com precisão a força política de Lula no pior momento de sua trajetória recente.

Francisco Proner (2018), Farpa agency.

Francisco Proner (2018), Farpa agency.

Como as imagens constroem as narrativas no mundo contemporâneo?

Entre os anos 1960 e 2000 do século XX, a televisão foi a grande responsável por essas construções. Através de programas de televisão de todo o mundo ou dos filmes de Hollywood, a televisão foi responsável por uma parte significativa da educação das gerações X e Y.

Já nos últimos anos, o Instagram, o YouTube e as plataformas de streaming vêm cumprindo esse papel. A possibilidade de sermos nós mesmos os criadores de conteúdo (como no caso dos dois primeiros, e de muitas outras plataformas) é uma mudança importante na dinâmica das narrativas. Isto não somente demonstra a força da imagem em nossa sociedade como gera uma demanda ainda mais forte pela alfabetização audiovisual. Segundo a plataforma de dados “Think with Google” da Google, quase 80% dos jovens latino-americanos afirma que o YouTube é o primeiro recurso que buscam quando querem aprender algo novo.

Em 2016, no período das eleições norte-americanas, o fenômeno das fake news ocupou o centro das discussões. Craig Silverman, editor da página Buzzfeed, informou que no Facebook as notícias falsas tiveram uma capacidade de atração muito maior do que as notícias verdadeiras:

Não cabe a menor dúvida de que, por exemplo, analisando as 20 principais fake news sobre as eleições e comparando-as com as 20 principais notícias sobre as eleições em 19 grandes veículos, as fake news tiveram mais engajamentos no Facebook.

Este quadro se agrava quando, além das notícias falsas quanto ao conteúdo, temos também notícias falsas quanto à forma. As chamadas deep fake são o exemplo mais concreto de um fenômeno que ainda não explodiu.

Esse fenômeno não só intensifica os “novos” perigos do mundo em que vivemos como também a importância de educar nosso senso crítico e nossa capacidade de percepção e realização com as linguagens audiovisuais.

A importância fundamental da alfabetização audiovisual

Se até o século XX eram considerados analfabetos aqueles que não sabiam ler ou compreender um texto, no século XXI também são analfabetos os que não sabem fazer uma crítica, ou compreender que qualquer vídeo ou filme tem um ou mais autores, que têm um ponto de vista e uma intenção com sua mensagem.

A alfabetização audiovisual nada mais é que aprender as ferramentas de produção e realização da imagem, compreendendo não somente como fazer, mas também como ler cada situação audiovisual.

Por exemplo, em um filme, consiste em entender por que o plano está enquadrado de uma ou de outra forma, o que se quer dizer com esta ou aquela iluminação, ou por que o ator atua assim ou de outro modo. Até agora, esses conhecimentos parecem assuntos técnicos e específicos de uma área de conhecimento, mas cada vez serão questões mais importantes para evitar a manipulação e compreender mais profundamente essa linguagem humana.  Todo conteúdo audiovisual é uma construção de alguém e, portanto, tem um ponto de vista e tem intenções.  Desconstruir e compreender as intenções é fundamental.

Este processo de desconstruir filmes, estudar as intenções de cada parte e o modo como são comunicadas é conhecido como análise fílmica. Existem bons textos em português na revista Moviement, bem como uma boa análise do filme O poderoso chefão.

Como usar a imagem como aliada e, a partir disso, promover a alfabetização audiovisual?

  • No filme “Quando sinto que já sei” (2014), pude documentar diferentes iniciativas de mudança educacional no Brasil. A partir dessa experiência, participei de diversos diálogos e rodas de conversa com educadores em todo o país e constatei a importância do documentário para mostrar e trazer às pessoas o que é uma escola com uma pedagogia diferente.
  • Em outra experiência, um ano depois, como parte do coletivo “Movimento Entusiasmo”, criamos experiências para criar novos olhares no ambiente educativo. Pudemos documentar parte dessas experiências no curta “Inventolhar” (2015).
Cena do filme “Inventolhar”, Movimento Entusiasmo (2015)

Cena do filme “Inventolhar”, Movimento Entusiasmo (2015)

Esses exemplos documentam experiências e utilizam o audiovisual como uma ferramenta, mas também pode ser uma fonte de exploração muito mais profunda. Por exemplo, na construção da identidade pessoal e comunitária. Compreender as imagens que criamos em nosso dia a dia (fotografias, Instagram, vídeos para o YouTube etc.) pode nos dizer muito mais sobre nós mesmos. Investigar isso com os alunos e provocar experiências para repensar a visão que temos de nós mesmos e do mundo que nos rodeia pode ser fonte de inúmeros aprendizados, além de contribuir para a alfabetização audiovisual de todos.

Nos aprofundarmos nessas experiências em construções narrativas, e não só de imagens, é uma possibilidade que deve ser cada vez mais trabalhada. Nos elevarmos a esse nível é justamente o que pode criar oportunidades de desenvolvimento crítico, uma habilidade cada vez mais importante para sermos cidadãos em nosso planeta. Mais do que trabalhar essa habilidade, propostas que tenham a produção audiovisual como principal ferramenta permitem também trabalhar outros aspectos importantes da “nova educação”. A empatia, poder e ter que olhar uma mesma situação e proposta a partir de diferentes pontos de vista, ou o trabalho em equipe, desenvolvendo diferentes papéis, como na produção de um filme, por exemplo. E a capacidade de dialogar de diversas formas, podendo construir vídeo-ensaios, ficções, documentários, vlogs e outras possibilidades.

O professor não deve se preocupar por ter uma responsabilidade a mais, ou mais um campo de conhecimento para conhecer e ensinar, e sim deve aproveitar para se aproximar, e aproximar a escola, da comunidade da qual faz parte. Existem distintos profissionais do campo audiovisual e jornalistas que podem dar oficinas, ensinar conteúdos e ser tutores de projetos dos estudantes. Um grupo de alunos pode visitar e aprender distintos conteúdos e habilidades visitando um estúdio de televisão, ou o estúdio de um YouTuber, por exemplo.

São várias as possibilidades. O mais importante é buscar uma alternativa à escola tradicional, pois não será difícil criar grandes experiências que ajudem o professor a trazer o mundo para mais perto da escola do século XXI.

Texto originalmente publicado no site Líderes Transformadores de la Educación, da Fundación SM.

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