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Cidadania Global: Desenvolvimento das Competências Globais

13 de janeiro de 2021 Ouvir o texto

O tema do terceiro encontro virtual do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa foi “Desenvolvimento de Competências Globais”. Fernando Reimers, professor da Harvard Graduate School of Education, e Javier Valle, diretor do grupo de pesquisa “Política Educacional Supranacional” da Universidad Autónoma de Madrid, participaram da conversa, que foi moderada por Augusto Ibáñez, diretor corporativo de Projetos Educacionais Especiais do Grupo SM e também o coordenador do projeto Cidadania Global.

A atualidade do debate foi marcada pela necessidade urgente de incorporar o desenvolvimento das competências globais nas escolas, tema abordado recentemente pelo Relatório Pisa, com a afirmação de que estas são um dos pilares da escola do futuro. Na mesma linha, as recomendações formuladas pela União Europeia em 2018 para o conjunto de competências essenciais em Educação destacaram a ênfase na necessária incorporação da competência global. 

O que são as competências globais?

O professor Fernando Reimers afirma que uma das funções inevitáveis da Educação é preparar os jovens para o mundo em que vivem.  “Nossos alunos observam, confusos, um mundo totalmente abalado pela pandemia da COVID19. Por isso, hoje é importantíssimo explicar o que são as Competências Globais e quais delas são necessárias para compreendermos esta situação”, afirma. Reimers cita as seguintes:

  1. Autoconsciência: capacidade de entender como essa situação nos afeta.
  2. Empatia: capacidade de colocar-se no lugar do outro, do diferente, do distante.
  3. Flexibilidade e adaptabilidade: inventividade para criar coisas diferentes e colaborar com os demais para o alcance de objetivos comuns. Aprender de outra forma.
  4. Compreensão cognitiva e crítica da realidade: discernir entre o que é verdadeiro, científico e demonstrável versus o que é falso, virtual ou opinião tendenciosa.
  5. Capacidade de analisar realidades complexas e diversas: levar em conta que a realidade não afeta a todos da mesma maneira.
  6. Capacidade antecipatória e prospectiva: aquela que permite antever o futuro imediato.

Todas as competências acima devem estar apoiadas em uma série de valores éticos compartilhados. Reimers sintetiza as competências globais como o conjunto de conhecimentos, habilidades e disposições que nos permitem compreender e participar efetivamente de um mundo interdependente, contribuindo para aumentar o bem-estar humano e a sustentabilidade do planeta.

Além disso, essas competências globais devem ajudar a dar significado e satisfação aos jovens alunos.

Como as competências globais se inserem no conjunto de competências essenciais da União Europeia?

O professor Valle nos diz que, no contexto atual, a escola não pode continuar centrada em questões locais, como está acostumada, pois dessa forma ela não consegue participar e cerceia aos alunos todas as possibilidades que o mundo de hoje oferece. É por isso que a competência global é determinante nas recomendações essenciais para a Educação elaboradas pela União Europeia, em 2018. Todas as competências essenciais referem-se ao global, embora o professor destaque essa incidência especialmente em duas delas:

1. Competência pessoal, social e de aprendizagem: destacando para a UE as capacidades já mencionadas por Reimers de empatia, autorregulação, flexibilidade e colaboração. Nesse ponto, a UE reforça a importância de passar do local para o global. O global deve ser a escala de interpretação da comunidade.

2. Competência cívica: a UE fala especificamente de desenvolvimento global e sustentável, destacando a capacidade de empreender e agir levando em consideração a complexidade e a interdependência do que é global.

Na mesma linha, as recomendações sugeridas pela Organização das Nações Unidas (ONU) para outras competências são permeadas pelo global de forma relevante.

Na competência de comunicação, o conhecimento multilíngue é uma porta aberta para compreender os demais com maior empatia. Na competência matemático-científica, a compreensão de questões globais, como meio ambiente e sustentabilidade, são decisivas. A competência digital é necessária porque nos permite acessar a globalidade do mundo e do conhecimento compartilhado. A competência de apreciação e expressão cultural permite interpretar as expressões culturais e artísticas locais, regionais, nacionais, europeias e mundiais.

Resumindo, as oito competências essenciais da UE estão marcadas pela competência global em termos de conhecimentos, destreza e aptidões.

A educação global deve ser uma nova disciplina? Como incorporá-la ao currículo escolar?

O professor Reimers, após mais de 20 anos trabalhando nesse tema, conclui que sua aposta seria por uma mudança sistêmica, pela reinvenção da escola e do sistema educacional a partir de cinco dimensões: cultural, profissional, psicológica, institucional e política. No entanto, como isso não é possível nas atuais circunstâncias, ele propõe não a criação de uma disciplina, mas o fornecimento de ferramentas pedagógicas para acompanhar os professores no desenvolvimento das capacidades globais de forma que elas estejam presentes em todo o currículo. Da mesma forma, ele apoia a necessidade de que a visão da competência global seja compartilhada não apenas pela direção das escolas, mas por todo o corpo docente.

O professor Valle defende também uma mudança sistêmica, ao invés da criação de novas disciplinas. Além disso, essa mudança deve ser acompanhada por uma nova abordagem, que ele chama de dignidade humana, entendida como a fraternidade cristã que valoriza o que é comum a todos os seres humanos. Para ele, não se trata de métodos, mas, sim, de abordagem e metas. Há que se fornecer aos alunos do século 21 ferramentas que lhes permitam viver e atuar em um planeta interconectado e sustentável.

 

Agenda: Confira a programação completa dos próximos encontros do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa

 

 

 

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