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Educação global inclusiva para um mundo sem periferias

15 de março de 2021 Ouvir o texto

De acordo com o relatório Jovens espanhóis 2021, publicado pela Fundação SM (disponível em espanhol), os jovens reconhecem a educação como um dos três aspectos mais importantes de suas vidas, atrás apenas da saúde e da família. Entretanto, a atual crise causada pela Covid-19 ressalta a desigualdade no acesso ao sistema educacional.

O atual momento de pandemia ressaltou o quanto a globalização interconecta – e afeta – a todos, sem distinção, e desnudou as fragilidades como a falta de acesso a tecnologias de informação para grande parte da população, incluindo crianças e jovens, que se viram excluídos do sistema educacional e tiveram cerceado o direito à educação.

O sexto encontro do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa abordou exatamente esta questão. O tema do debate foi “Educação Global inclusiva para um mundo sem periferias” e contou com a participação de Albert Arcarons, do Governo da Espanha; Carme García Yeste, da Universidade Rovira y Virgili, na Espanha; Gerardo Echeita, da Universidade Autônoma de Madri. A mediação ficou a cargo da diretora global da Fundação SM, Mayte Ortiz.

O que está sendo feito na política para lutar contra a exclusão educacional?

Albert Arcarons afirma que melhorar a igualdade do sistema educacional é o objetivo principal do Alto Comissariado contra a pobreza infantil na Espanha, e que inclusão e qualidade são elementos indissociáveis e prioritários de sua tarefa.

Ele defende que a educação inclusiva é aquela que permite desenvolver o talento de todos os alunos, independentemente de suas condições socioeconômicas originais. É aquela que responde às necessidades dos alunos, tanto dentro como fora do centro educacional.

A educação é a ferramenta principal para romper com as dinâmicas exclusivas que a pobreza infantil gera, pois quanto menos inclusivo é o sistema educacional, mais difícil é acabar com a desigualdade que essa pobreza gera.

Para resolver essa equação na Espanha, o Alto Comissariado segue duas linhas estratégicas de trabalho:

  • Ampliar a oferta de educação infantil para crianças de 0 a 3 anos
  • Garantir uma educação inclusiva e de qualidade nas demais etapas educacionais, a fim de evitar desvantagens socioeconômicas desde o início

Por esse motivo, o Alto Comissariado da Espanha propõe uma educação gratuita, que arque com todos os custos indiretos (material, condições, tecnologias etc.).

Vários relatórios publicados pelo próprio Comissariado e por outras instituições indicam que as diferenças econômicas de origem são um fator muito determinante do sucesso ou fracasso e do abandono escolar. “A pandemia teve um forte impacto sobre a desigualdade, aumentando ainda mais a lacuna para os alunos mais vulneráveis”, reforça.

Arcarons explica que, de acordo com relatórios internos, o atual sistema educacional espanhol não permite essa função compensatória e equalizadora que deveria oferecer a seus beneficiários. Isso impacta diretamente nos estudantes. Atualmente, o que a Espanha chama de “taxa de transmissão da desvantagem educacional” para se referir às diferenças sociais entre os estudantes, é de 45%, um valor excessivo.

Para reverter esse cenário, está em tramitação uma reforma na Lei Orgânica da Educação (LOMLOE) que tem como objetivo gerar mais igualdade, sem sacrificar a qualidade, desde a primeira infância.

Metodologias inclusivas e evidências científicas

A professora Carme García Yeste afirma que todos deveriam poder se beneficiar dos avanços técnico-científicos e, às vezes, duvida-se que isso possa ser aplicado à educação, já que muitas metodologias são implementadas sem evidências científicas. “O mundo educacional está cheio de mitos que explicam correlações, mas não entram nas verdadeiras causas dos problemas. Portanto, precisamos aplicar o método científico, usar evidências em tudo o que fazemos e inovar no campo pedagógico e educacional”, enfatiza.

Ela diz que deveríamos aplicar metodologias como as do projeto Comunidades de Aprendizagem, que foram testadas e comprovadas quanto a sua eficácia, seus resultados de sucesso acadêmico dos alunos e o benefício social de melhoria na coesão e na igualdade.

O que é aplicado em educação precisa ser validado pelos resultados alcançados, pelo sucesso da prática. E, para alcançar um impacto social real, as metodologias precisam estar acompanhadas de impacto científico e validação. “A ciência nos mostra que é possível realizar uma prática educacional inclusiva e bem-sucedida, que gera melhorias sociais e acadêmicas se for fundamentada em evidências”, destaca.

Ela finalizou afirmando que a crise provocada pela pandemia da Covid-19 evidenciou que o direito à educação não se garante por si só. “A população infantojuvenil mais vulnerável está cada vez mais caindo em caminhos institucionalizados de fracasso e exclusão”, enfatiza.

Aprendizagens imprescindíveis

O professor Gerardo Echeita garante que estamos imersos em um mundo diverso, complexo e interconectado, e que, além disso, decidimos socialmente que seja assim e lhe conferimos um caráter de direito legalmente reconhecido. “Portanto, essa complexidade diversa precisa ser o ponto de partida rumo a tudo que possibilite o exercício desse direito”, afirma.

Segundo ele, nessa complexidade, é fundamental encarar desafios muito grandes dentro e fora da escola. Por exemplo, a atual crise na área de saúde tem tirado as crianças das escolas e as trancado em casa com suas famílias, em situações muito diversas e desiguais que reproduzem e agravam as desigualdades geradas pela pobreza e pela vulnerabilidade social.

Além disso, ele reforça que há elementos estruturais do sistema educacional que se opõem à transformação, como os mitos educacionais e o desprezo pelas evidências científicas, apontados por Carme, e o próprio sistema é excessivamente engessado e burocratizado. “Precisamos repensar o que ensinar, como ensinar e por que ensinar”, enfatiza.

Para concluir, o professor defende que a escola precisa oferecer duas aprendizagens básicas.

  • Aprender a conviver
  • Aprender a aprender

Mayte Ortiz destacou duas competências que foram discutidas em sessões anteriores: a competência digital e a multilíngue. Se ambas não forem abordadas sob uma perspectiva inclusiva, poderão gerar ainda mais lacunas e desigualdades.

Quando questionado sobre os critérios básicos para as competências e os saberes dos alunos do século 21, o professor Gerardo Echeita afirma que eles precisam passar pelo filtro da igualdade, ou seja, precisam estar acessíveis a todos os alunos. A professora García Yuste defende o uso de metodologias e critérios empiricamente endossados e comprovadamente bem-sucedidos. A partir daí, deve-se desenvolver a maneira de torná-los efetivos. Por sua vez, Albert Arcarons afirma que uma das competências básicas inevitáveis hoje é a alfabetização digital. Sem essa competência, não é possível exercer a cidadania de forma efetiva, reforçando que a alfabetização digital deve estar acompanhada da igualdade de condições para exercê-la (dispositivos, conectividade, programas etc).

Albert destaca também que existem outros canais ou linguagens de inclusão bem-sucedidos, como a música, a arte e os esportes, que comprovadamente melhoram os resultados educacionais e aumentam a igualdade.

Perdeu os seminários anteriores? Neste link é possível rever como foram os primeiros encontros, além se conferir a programação completa dos próximos webinários.

Assista ao webinário completo:

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