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Uma escola relacional para construir a Cidadania global

4 de fevereiro de 2021 Ouvir o texto

O tema do quarto encontro virtual do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa, da Fundação SM, foi “Uma escola relacional para construir a cidadania global”, que contou com a participação de Rafael Bisquerra, catedrático de orientação psicopedagógica da Universidade de Barcelona; Ignacio Megías Quiros, pesquisador social; e Belén Blanco, responsável pedagógica da rede espanhola de colégios marianistas. A conversa foi moderada por Romina Kasman, especialista do programa OREALC/ UNESCO, Santiago do Chile.

A discussão partiu do princípio de que as escolas são um entorno que vão muito além do lugar onde ocorrem os processos cognitivos de educação, são também o habitat no qual é estabelecido um grande número de relações e são geradas incontáveis emoções que devemos educar e levar em conta na construção da cidadania global.

A gestão das emoções

O professor Rafael Bisquerra propõe observar a atualidade em qualquer jornal nesta época de pandemia para encontrar exemplos de coletivos profissionais (médicos, enfermeiros, professores, etc) que sofrem transtornos emocionais graves como depressão, ansiedade, estresse, consumo excessivo de drogas ou medicamentos. Isso nos conecta diretamente com o tema do debate, já que a educação emocional surge como resposta às necessidades sociais que não são atendidas em nenhum nível educativo. Até o momento, a educação sempre foi cognitiva.

No entanto, fica cada vez mais claro que no século XXI as necessidades sociais mais urgentes têm uma clara base emocional: depressão, suicídios, fracassos familiares, estresse, medos, consumo de drogas e álcool ou frustrações no trabalho. “Todas elas obedecem a uma má ou inexistente gestão das emoções mais profundas do ser humano. Não aprendemos a lidar positivamente com as nossas emoções”, explica.

Por isso, o professor Bisquerra propõe que a educação nas escolas desenvolva competências emocionais para prevenir muitos dos problemas apontados. Para ele, a educação emocional pode e deve contribuir com o desenvolvimento integral da pessoa, com seu bem-estar, com a melhoria da convivência e com o bem comum. A crise provocada pela COVID 19 contribuiu para intensificar essa necessidade.

O professor afirma que os seres humanos não estão biologicamente preparados para serem felizes, somente para garantir a sobrevivência como espécie. Por isso, é preciso aprender a amar e a ser amados, a conviver e a compartilhar o bem-estar. “Este é o grande desafio da educação para o século XXI e para a cidadania global, não apenas como um desafio para a escola ou para a universidade, mas como um grande desafio de aprendizado para toda a vida”, enfatiza Bisquerra, que trabalha nisso há décadas com a rede RIEEB (Rede Internacional de Educação Emocional e Bem-estar.

O projeto REM de transformação marianista

A professora Belén Blanco se questionou, junto a toda a equipe dos colégios marianistas da Espanha, sobre quais deveriam ser as transformações nos colégios para melhorar a educação do século XXI.

Partiram de um modelo de pessoa que se constrói por meio das relações, portanto, o objetivo da escola marianista é formar pessoas íntegras que queiram fazer parte da sociedade de forma criativa e contribuindo para construir uma sociedade mais justa e solidária; pessoas capazes de construir um mundo melhor.

Para conseguir esse objetivo, foram estabelecidos dois grandes eixos estruturantes:

  • Educação integral entendida como o desenvolvimento de todas as dimensões da pessoa (cognitiva, emocional, ética, artística, espiritual)
  • Estilo educativo relacional, ou seja, entender a educação como um ato relacional contínuo, fundamentalmente entre aluno e professor. Este estilo relacional nos leva a falar sobre valores relacionais como o vínculo afetivo, o respeito à dignidade das pessoas, à liberdade absoluta do aluno e seu reconhecimento pessoal em suas fortalezas e singularidades.

O passo seguinte nos colégios marianistas da Espanha foi escolher oito relações sobre as quais deve haver um trabalho metodológico por comissões que as adaptem no contexto das escolas.

  • Educador/Aluno
  • Aluno/Aluno
  • Educador/Educador
  • Centro educativo/Família
  • Educador/Projeto educativo do centro
  • Educador/ Equipe de direção do centro
  • Centro educativo/Sociedade, entorno
  • Centro educativo/Rede de escolas

A implementação dessas mudanças está sendo realizada de forma coordenada com todas as equipes de direção.

O marco relacional e de convivência dos jovens

O sociólogo Ignacio Megías aresentou a perspectiva dos alunos através da última pesquisa sobre jovens espanhóis realizada para o Observatório da Juventude Ibero-americana e a Fundação SM. Entre os dados que nos interessam, o pesquisador destaca que para os jovens espanhóis, a escola é o lugar onde são faladas as coisas mais importantes da vida. O centro educativo, pela primeira vez desde que esses estudos são feitos, aparece como a instituição onde os jovens reconhecem que aprendem as coisas mais importantes, superando a família e os amigos. Isso destaca a importância que os jovens dão à escola para o seu aprendizado e socialização.

Outro dado que destacam é que reconhecem a escola, junto com a família, como o lugar que ensina os valores fundamentais, e 60% reconhece que o que aprendem na escola ajuda na convivência democrática. Também avaliam de maneira muito positiva o sistema educativo e consideram que a educação é um dos problemas mais importantes do país.  Para isso, a formalização e o estudo são das poucas coisas que dão esperança, representando uma janela para o futuro.

Em relação ao aprendizado de novas tecnologias, eles reconhecem que não pode ser feito somente do ponto de vista técnico, mas que a competência tecnológica deve incluir também aspectos emocionais como a gestão das relações online e offline, do tempo, dos possíveis vícios, do excesso de informação, etc.

A pandemia e o confinamento evidenciaram que a formação online gera problemas de concentração e atenção contínua nas telas e precisam da escola como lugar de socialização, para estar juntos e colaborar presencialmente com seus colegas e professores.

Diálogo

O catedrático Bisquerra reforçou a necessidade da educação emocional para enfrentar os graves problemas de violência que ocorrem no mundo. Para ele, ao analisar a personalidade das pessoas violentas, descobre-se que em sua maioria possuem um analfabetismo emocional grave, que são incapazes de regular os sentimentos de raiva, ira ou frustração. “A incapacidade emocional faz com que sejam desconfiados porque partem da sua própria desconfiança. Por isso insisto em educar para a autonomia emocional como parte essencial da formação integral da pessoa. Devemos quebrar uma palavra tabu na educação: amor”, destaca.

Perguntaram para Belén Blanco sobre os principais desafios ou dificuldades para implantar o modelo REM. Ela salientou como os principais: a resistência à mudança por parte dos educadores; a rigidez dos sistemas educativos; a extensão e o academicismo do currículo; a dificuldade de avaliação, que é excessivamente qualitativa e se concentra apenas em aspectos acadêmicos; e a construção de uma narrativa comum nas equipes de direção.

Por fim, Ignacio Megías finalizou o webinário falando sobre as disparidades que as novas tecnologias estão gerando na educação. Uma delas, pelo menos na Europa, destaca a capacitação deficiente do ambiente dos alunos: os professores e as famílias. Em muitos casos, nem nestes tempos de pandemia e suspensão das aulas presenciais conseguiram acompanhar a formação online de seus alunos ou filhos. Outra disparidade destacada pelos próprios alunos é a diminuição da qualidade da educação, que reconhecem que os afeta negativamente estando às portas do acesso à universidade e do futuro profissional.

 

Agenda: O próximo encontro do programa Cidadania Global ocorrerá no dia 10 de fevereiro de 2021, às 13h30. Confira a programação completa dos próximos encontros e inscreva-se.

Assista ao webinário completo

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