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A educação não-formal e suas contribuições para a cidadania global

4 de novembro de 2021 Ouvir o texto

Cada vez mais, a educação não-formal tem se tornado um complemento muito importante da educação formal e institucionalizada, sendo um processo educacional voluntário, com uma clara intenção de aprendizado, planejado, muito mais flexível e adaptável, caracterizado pela diversidade de métodos, áreas, conteúdos, processos e momentos nos quais é aplicado.

Para lançar luz a esse tema, o tema do XI encontro do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa, foi A educação não-formal e suas contribuições para a cidadania global. O webinário contou com a participação de Txus Morata, professora de Inovação e Análise Social, da Faculdade de Educação Social da Universidad Ramon Llull, em Barcelona; Diego Fuertes García, psicólogo esportivo na Fundación Real Sporting de Gijón, na Espanha; e Miguel Gil, professor no Projeto LOVA. A mediação foi feita pelo Rafael Gómez Ponce, diretor da Fundação SM Chile.

Os benefícios educacionais do lazer

Txus Morata apresentou o case da Fundação Pere Tarrés que tem dois formatos de locais com serviços fundamentais destinados a crianças, adolescentes e jovens, localizados na Catalunha (Espanha). Nesses espaços, todas as áreas de formação são abordadas de forma sistêmica, com o apoio de todos os agentes da comunidade envolvidos no processo, tais como a escola, a família, os recursos de saúde e bem-estar social, as instalações municipais, etc.

A estrutura da Fundação Pere Tarrés contém:

  • Centros socioeducacionais: com uma rede de 31 centros abertos diariamente durante o horário não-escolar, destinados principalmente a jovens em situação de risco e vulnerabilidade social. Seus objetivos visam o desenvolvimento integral, proporcionando-lhes recursos cognitivos, emocionais, relacionais, de lazer saudável e de prevenção de riscos sociais. Nesses centros são desenvolvidos seis programas principais: Reforço educacional cognitivo-emocional; Lazer educacional; Apoio às famílias na criação e na primeira infância; Treinamento e orientação profissional para jovens; Atendimento psicológico a crianças com problemas de aprendizagem e saúde mental; e Trabalho em famílias e convivência.
  • Centros de tempo livre e lazer educacional: têm 194 centros com atividades para cerca de 11 mil jovens e crianças. Realizam dois tipos de atividades: aos fins de semana (jogos cooperativos, aprendizagem-serviço, atividades culturais e na natureza); e nas férias organizam atividades por períodos mais longos, tais como acampamentos, trilhas na natureza, e viagens culturais.

“As características mais marcantes das atividades mencionadas são que meninos e meninas são os protagonistas: eles projetam, executam e avaliam tudo que realizam”, comenta Txus. Segundo ela, estes dois tipos de espaços contribuem com três dinâmicas fundamentais para a cidadania global:

  1. A sensibilidade social: a consciência dos problemas do entorno e globais são trabalhadas de uma forma crítica e responsável.
  2. São desenvolvidas habilidades profissionais e acadêmicas tais como: trabalho em equipe, empreendedorismo, iniciativa, adaptação às mudanças, pensamento crítico e aprender a aprender.
  3. Também se adquirem aprendizados sobre mobilização social, ativismo político e educação intercultural.

“Todos estes valores estão ligados ao compromisso social e ao bem comum”, complementa a educadora.

Projeto Sporting Genuine: A inclusão através do esporte

Em 2007, a Fundação do Real Sporting de Gijón foi criada com o objetivo de promover os valores ligados ao esporte e ao futebol em particular. A Fundação lançou o projeto Sporting Genuine com a intenção de favorecer a inclusão esportiva e social de pessoas com deficiência intelectual, para que a prática do futebol seja acessível a este grupo.

A equipe é atualmente formada por 26 pessoas e compete no campeonato junto a outras 38 equipes de toda a Espanha. Isso lhes permite integrar outras entidades e instituições públicas e privadas no projeto.

“O Genuine se estabeleceu como uma das iniciativas de maior impacto social do clube na cidade. O projeto também é acompanhado por pesquisas com os atletas e suas famílias, e avaliações abrangentes para a melhoria da qualidade de vida e aprendizado psicossocial e emocional que demonstram o impacto positivo do projeto”, explica Diego Fuertes.

Projeto LÓVA: a Ópera como um veículo de aprendizado

LÓVA é um projeto educacional que nasceu há 40 anos nos Estados Unidos quando um educador se perguntou por que não criar uma ópera na sala de aula. A ideia é criar uma ópera dentro da própria escola, integrada ao currículo e no horário escolar durante o ano letivo. Miguel Gil conta que na Espanha, a iniciativa já foi implementada em mais de 400 escolas e colégios do ensino fundamental e médio.

“Claramente, o projeto requer um trabalho intensivo de adaptação, trabalho extra e formação intensiva do professor. A classe torna-se uma companhia de ópera que é criada do zero, com enorme potencial educacional integral”, explica Gil.

O LÓVA também foi levado à prisão Valdemoro (Madri) como um projeto terapêutico para viciados em drogas. O sucesso foi tanto que a ópera criada foi apresentada fora da prisão em vários palcos públicos. “Provou-se que é realmente eficaz como projeto reeducacional e terapêutico, melhorando a saúde psicológica e emocional. Também teve um efeito muito benéfico sobre as famílias dos presos, com uma clara melhoria em suas relações”, enfatiza Gil.

Como esses programas permeiam a sociedade?

Para Txus Morata, sua experiência diz que eles têm um forte impacto sobre a população mais vulnerável, especialmente seu projeto em centros sociais, pois esses se tornam lugares de apoio social e familiar, uma referência para muitas famílias imigrantes, e para a criação de hábitos e aquisição de competências sociais, laborais e cognitivas dos usuários.

Já Diego Fuertes destaca três elementos do projeto Sporting Genuine:

  1. Proporciona aos atletas deficientes um ambiente amigável que lhes permite realizar atividades que atendam às suas expectativas em um entorno que é confortável para eles e lhes produz bem-estar.
  2. Adquirem competências e rotinas de equipe e sociais que os capacitam e facilitam suas relações externas.
  3. Dá confiança às famílias, já que encontram um entorno seguro para seus filhos e ainda recebem apoio incondicional dos sócios e torcedores do Sporting de Gijón.

Miguel Gil destaca a gratidão e a melhoria das relações com os familiares e o entorno social dos presos que têm participado do programa LÓVA.

Desafios formativos enfrentados pelas organizações

Txus Morata indica que a educação não-formal também precisa de uma forte capacitação para seus profissionais e voluntários. Ela ressalta que esses eles precisam acreditar que são figuras essenciais na educação, e as instituições sociais e educacionais também devem contribuir para isso. “Os profissionais e voluntários da educação não-formal devem combinar técnicas e recursos com uma forte formação autoemocional. E uma terceira vertente seria a da defesa social ou do ativismo político do próprio educador”, reforça.

Para Diego Fuertes, é preciso sempre motivar os educadores a terem uma percepção clara da responsabilidade que sua ação educacional implica, além de capacitação constante e contínua.

Já Miguel Gil aponta que o LÓVA demanda um grande esforço por parte dos professores e voluntários para se capacitarem voluntariamente.

Efeitos e lições da pandemia

Txus comenta que a pandemia os fez repensar muitas coisas na forma como operam, mas nem tudo foi negativo. Por exemplo, os centros sociais se tornaram referência e um serviço essencial para muitas pessoas durante este tempo. Também geraram dinâmicas de rede muito positivas ao precisarem uns dos outros, e foram forçados a colaborar com escolas, centros de saúde, serviços sociais e comunitários. “A pandemia tem destacado o fato de que muitos jovens e famílias não têm acesso a serviços básicos como internet. Por outro lado, isso tem fortalecido os laços comunitários à medida que iniciativas sociais têm sido lançadas para resolver essas deficiências”, reforça.

A professora também destaca a flexibilidade e adaptabilidade que iniciativas e projetos de educação não-formal têm demonstrado, proporcionando respostas rápidas, imaginativas e, em muitos casos, mais eficazes do que a educação formal.

Diego diz que a pandemia reduziu muito suas possibilidades de ação, já que o Sporting Genuine promove um esporte de grupo, que ficou proibido e reduzido por muitos meses. Para ele, a parte positiva deste período é a evidência da necessidade do que estavam fazendo, como a atividade física e o esporte são bons para essas pessoas. E, por último, esta época expôs ainda mais as dificuldades que as pessoas com deficiências mentais têm que enfrentar diariamente.

Miguel enfatiza que, na prisão, a lacuna digital não foi notada, já que não há acesso à internet. “A pandemia exacerbou tudo o que é grave em uma prisão, e significou uma prisão dupla. Apesar de tudo, o projeto LÓVA não parou e, através dos voluntários e formadores, foi possível continuar. Nos colégios, o vírus também alterou o projeto ao não haver presencialidade. As adaptações têm sido muito complexas e distorceram bastante o desenvolvimento”, relata.

Miguel tem uma visão positiva da redução de proporções e da criação de grupos de trabalho menores que têm facilitado, parcialmente, as tarefas e têm demonstrado a necessidade de uma educação mais personalizada e adaptável.

 

Perdeu os seminários anteriores? Neste link é possível rever todos os encontros do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa, da Fundação SM.

 

Assista ao webinário completo:

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