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Metodologias Ativas para uma Cidadania Global

18 de junho de 2021 Ouvir o texto

As Metodologias Ativas têm sido introduzidas gradativamente nas salas de aula, proporcionado maior protagonismo aos alunos, que passam a atuar e participar ativamente do processo de ensino-aprendizagem, estimulando-os para serem capazes de construir o próprio conhecimento. Além disso, trata-se de um ensino contextualizado em problemas do mundo real, onde os alunos já estão inseridos e se desenvolverão futuramente, e que forma cidadãos globais competentes, autônomos e críticos.

Este foi o tema do nono webinário do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa, da Fundação SM. O evento contou com a participação de César García Rincón, especialista em projetos internacionais de educação e para o desenvolvimento humano; Natalia Allende, diretora da Design for Change, no Chile; e Andrés Conde Solé, diretor executivo da Save the Children, na Espanha. A mediação foi feita por Cecilia Espinosa, diretora da Fundação SM México.

7 formas da aprendizagem-serviço contribuir para a Cidadania Global

Aprendizagem-serviço é uma metodologia ativa que se afasta do modelo de ensino tradicional, permitindo que os estudantes se envolvam numa educação experiencial que contribui para o desenvolvimento de competências de organização, comunicação e capacidade de análise.

César García-Rincón listou sete pontos nos quais a aprendizagem-serviço pode auxiliar na aprendizagem da Cidadania Global.

  1. A Aprendizagem-Serviço é uma metodologia versátil e adaptável. É uma das preferidas por professores e alunos pela simplicidade de sua mensagem: “Aprender serve, servir ensina”.
  2. É simples e fácil de ser posta em prática. Não requer muito treinamento nem grandes investimentos materiais. Basta ter motivação e vontade de fazer mudanças.
  3. Dá sentido ético e social à aprendizagem escolar. Parte da relação virtuosa e sinérgica entre aprendizagem e serviço: fazer bem o bem.
  4. Conecta a escola com o mundo e com a realidade do ambiente, da comunidade e do bairro onde ela se encontra. A escola deixa de ser um espaço isolado; ela deixa o ambiente entrar na sala de aula e sai para a realidade social do seu território.
  5. Dá um senso ético e social aos currículos, uma vez que a Aprendizagem-Serviço tem um importante cunho ético. Além disso, torna os alunos protagonistas da mudança social desde já, sem esperar pelo amanhã.
  6. É perfeitamente complementada com habilidades educacionais. Qualquer disciplina pode ser conectada a um projeto de Aprendizagem-Serviço.
  7. Pertence à “caixa de ferramentas docentes” para mudar o mundo, ou seja, é uma ferramenta complementar e necessária para a Cidadania Global. Ela precisa apenas ser adaptada ao contexto e às necessidades dos alunos. 

 

Caso prático de metodologia ativa: projeto I CAN – Design for Change

Natalia Allende começou a sua fala com a seguinte pergunta: “Como preparar nossos alunos hoje para que não precisem consertar o mundo amanhã?” A resposta do Design for Change é criar uma experiência educacional — I CAN (“Eu posso”) — que combina o melhor da educação tradicional com as inovações: disciplina e criatividade; conteúdos e caráter; fazer o bem e fazer bem; ambição e compaixão.

Para conseguir isso, o Design for Change propõe quatro etapas:

  • SENTIR: Os alunos são convidados a pensar nas coisas do ambiente que os incomodam e as quais estão dispostos a mudar.
  • IMAGINAR: Incentiva o processo criativo. Como posso, em conjunto com minha turma, equipe ou grupo, melhorar essa situação?
  • FAZER: Cria-se um plano de ação e começa a trabalhar.
  • COMPARTILHAR: Difundir a experiência de mudança para inspirar outras pessoas.

“O espírito do ‘eu posso’ é ter consciência e empatia para se relacionar com o outro, capacidade de trabalhar em equipe e mostrar liderança, empoderamento para construir um futuro mais sustentável e consciência de que eu posso, eu sou capaz de construir e de mudar”, reforça Natalia.

Além disso, Natalia ressaltou que os interesses naturais dos alunos do Design for Change, no Chile, estão intimamente ligados aos objetivos de desenvolvimento sustentável e todos se encaixam em seu currículo e projeto educacional. “As crianças só precisam de uma chance para mudar o mundo”, afirma.

Save the Children: quilômetros de solidariedade para a Cidadania Global

Andrés Conde Solé se posiciona mais como trabalhador humanitário do que como educador. Por isso, ele relembrou duas crises que estão acontecendo no mundo na atualidade, além da pandemia provocada pela Covid-19. Primeiro a crise migratória em Ceuta, na Espanha, que mostra como 8 mil pessoas, sendo 2 mil delas menores, podem ser usadas sem escrúpulos num único dia para exercer pressão política; e, em segundo, o conflito armado entre Palestina e Israel, que em menos de uma semana causou quase 300 mortes, incluindo 61 menores.

Ele pontuou que alunos e professores recebem diariamente imagens do sofrimento globalizado e de suas consequências. Imagens que confirmam diariamente a fragilidade e a vulnerabilidade humana, como o fez a pandemia. E, a partir dessa observação, lança duas perguntas: “O que fazer com a ciência do sofrimento alheio?” e “Qual deve ser o papel da educação para transformar essa realidade?”

Para ele, a resposta está na educação para a cidadania global. “A cidadania é uma conquista que precisa ser defendida em conjunto com os direitos a ela associados, dos quais nem todas as pessoas usufruem. Portanto, os cidadãos têm a capacidade de agir e influenciar a sociedade e o ambiente, e a cidadania é uma qualidade interdependente que confere uma responsabilidade social”, destacou.

Andrés pontuou que para ser cidadão é preciso:

  • Ter interesse em conhecer e refletir constantemente sobre os problemas globais e entender as relações entre o local e o global, entre o passado, o presente e o futuro.
  • Ter consciência de que temos deveres e direitos. A realidade precisa ser modificada quando ela é injusta.
  • Fazer uma reflexão ética e estabelecer uma escala de valores cosmopolita, colocando a dignidade e o valor humano acima de tudo.
  • Participar e se envolver ativamente na vida cívica.
  • Defender a interculturalidade, que contribui e respeita a diversidade do mundo.
  • Trabalhar de forma comunitária, em conjunto com outros cidadãos, buscando espaços de construção do bem comum.

Há 18 anos, o Save the Children criou o “Kilómetros de Solidaridad” (quilômetros de solidariedade), um programa na Espanha que envolve voluntariamente 550 mil alunos, 45 mil professores e 2 mil centros educacionais por ano. O programa é baseado em quatro etapas proativas para os alunos: conhecimento de outras realidades, reflexão sobre essas realidades, consciência do próprio ambiente e ação cooperativa.

A organização fornece material didático e recursos audiovisuais sobre uma realidade concreta da infância vulnerável de um determinado país. Em 2020, o tema escolhido foi a perseguição de crianças do grupo étnico rohingyas na Birmânia. As escolas, professores, famílias e ambientes educacionais recebem propostas de atividades de reflexão e sensibilização que podem ser aplicadas de forma transversal em qualquer área do conhecimento. Nessas atividades são trabalhados valores como solidariedade, empatia, justiça social, interculturalidade e cooperação por meio do esquema conhecimento-reflexão-ação. No final do processo, tudo se cristaliza em um evento esportivo — uma corrida — incluindo também os patrocinadores que fizeram um aporte financeiro a ser investido na educação das crianças rohingya. 

Como implementar metodologias ativas nas escolas?

Cecilia Espinosa, a moderadora, indaga quais são as estruturas de apoio necessárias para implementar metodologias ativas nas escolas.

César García-Rincón afirma que, na era das competências globais, estas oferecem uma infinidade de possibilidades de adaptação e interpretação para a aplicação de metodologias ativas. Ele afirma que se há motivação e convicção, pode-se fazer muito mais do que parece ser possível, embora reconheça que, por exemplo, avaliações internas e externas restringem e condicionam.

Natalia Allende comenta que, a partir de sua experiência, a mudança começa com os “eduheróis“, os bravos professores que se arriscam e lutam para introduzir mudanças. Aqueles que não se conformam com o que existe ou que é habitual. O compromisso dos “eduheróis” e o apoio das famílias são fundamentais para a transformação.

Andrés Conde, por sua vez, faz duas recomendações para os gestores de escolas: trabalhar a partir das competências globais e evitar currículos sobrecarregados como os de hoje. Para as escolas e corpos docentes suas recomendações são: abertura para projetos transversais e multidisciplinares e abertura para a comunidade educacional (famílias, bairro, comunidade).

Como avaliar essas metodologias ativas?

César ressalta que é preciso saber o que se vai avaliar e quais mudanças metodológicas deverão vir acompanhadas de mudanças avaliativas. “As metodologias ativas devem incluir processos ativos de avaliação. Se temos clareza sobre o que queremos ensinar, é fácil estabelecer sua avaliação”, reforça.

Natalia diz que é fundamental para a avaliação levar em conta que as metodologias ativas desenvolvem competências socioemocionais em paralelo com capacidades cognitivas. Assim, a avaliação deve ser conjunta e centrada nos processos; deve ser constante e progressiva. “Devemos ouvir mais as crianças para melhorar seu processo educacional”, ressalta.

Andrés comenta que, mais do que o conhecimento, a ação e o comprometimento são fundamentais para a Cidadania Global. Portanto, devemos avaliar também como agir e como envolver os alunos. E, para concluir, ele deseja deixar registrado que, a partir de sua experiência como trabalhador humanitário, não tem muita confiança na capacidade de aprendizagem e transformação dos adultos, mas confia plenamente na educação das crianças e jovens. “É na educação deles que está o futuro de todos”, finaliza.

 

Perdeu os seminários anteriores? Neste link é possível rever como foram os primeiros encontros, além de conferir o tema do próximo webinário.

Assista ao webinário completo:

Educação para a cidadania global como vetor de transformação da escola

Matéria 27/08/2021

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