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Tecnologia com propósito em prol da cidadania global

12 de abril de 2021 Ouvir o texto

As novas tecnologias e a cidadania global são dois eixos de alto potencial educacional, uma vez que proporcionam recursos tecnológicos aos alunos para que possam interpretar melhor a realidade e agir de forma mais eficaz em relação a ela. É preciso ter em mente que esses meses de pandemia e o fechamento das escolas nos levaram à maior experiência do ensino remoto que já vivemos e nos mostraram que essa aprendizagem não foi equitativa – pelo contrário, ampliou ainda mais as desigualdades. A tecnologia é um amplificador, melhorando o que funciona bem, mas piorando o que funciona de forma regular.

Para discutir o que pode ser feito para mudar essa realidade, o tema do sétimo encontro do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa foi “Tecnologia com propósito para uma Cidadania Global”.

O webinário contou com a participação de Francesc Pedró i García, diretor do Instituto Internacional da UNESCO para a Educação Superior na América Latina e Caribe; Fernando Trujillo Sáez, professor da Universidade de Granada, na Espanha; e Pedro Jara, coordenador de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) do Real Colégio Escuelas Pías San Fernando, em Madri, na Espanha. A moderação ficou a cargo de Augusto Ibáñez, diretor de projetos educativos especiais do Grupo SM e coordenador do projeto Cidadania Global.

O que podemos fazer?

Francesc Pedró diz que a pergunta que devemos responder não é “o que deveríamos fazer?”, mas “o que podemos fazer?”. O especialista apontou dois requisitos essenciais para a prática do ensino remoto que, embora sejam “básicos”, não estão acessíveis para todos. São eles:

  • A realidade de muitas pessoas, principalmente estudantes, que se revelou durante a pandemia é a impossibilidade de acesso à internet. A conectividade deve ser considerada um direito fundamental no século 21. Sem essa conectividade, há uma perda considerável de bem-estar e impede-se o exercício de outros direitos.
  • O outro requisito básico é o que pode ou não ser feito com essa conectividade, e aqui ressurge o fosso de desigualdade, uma vez que há um uso muito diferente dessa possibilidade. Para milhões de pessoas, a conexão está ligada ao lazer, mas não se traduz em aprendizado ou caminhos profissionais.

Por isso, o direito de acesso deve vir acompanhado de um processo de aprendizagem quanto ao uso da conectividade. Caso contrário, as desigualdades educacionais aumentarão ainda mais, como estamos vendo neste momento de pandemia.

Como usar a tecnologia?

Ressaltando o que Francesc apontou, Fernando Trujillo afirma que a saída da crise atual provavelmente ocorrerá na forma de um “K” invertido, ou seja, com duas linhas divergentes: algumas pessoas vão crescer e avançar, enquanto outras ficarão para trás e seguirão cada vez mais na direção oposta. A pandemia está proporcionando um aprendizado muito frutífero para alguns, conferindo uma maior autonomia e reforçando sua visão mais complexa da sociedade. Mas, para outros, é um esforço que os está deixando para trás no aprendizado e nas questões sociais.

Não podemos deixar de usar as tecnologias na educação, mesmo que não tenhamos clareza sobre a contribuição delas, pois devemos acompanhar o progresso que representam para a sociedade atual. No entanto, sabemos que as tecnologias na educação trazem alguns problemas claros:

  1. Solucionismo tecnológico: acreditamos que tudo pode ser resolvido com melhorias tecnológicas, e não é assim. A tecnologia não resolve problemas antigos ou novos.
  2. Nativismo digital: o bom uso das tecnologias está relacionado às práticas sociais e aos aprendizados, não ao fato de “ter nascido na era digital”.
  3. Violação do direito à educação: com o fechamento de escolas e a chegada das aulas online, revelou-se que nem todos os alunos têm o acesso, a tecnologia, os dispositivos ou a competência para fazer aulas em casa. Isso é uma violação de direitos.

O que pode ser feito? Uso de metáforas ou imagens.

  • A tecnologia deve ser usada como uma base de apoio que ajuda a promover a educação no mesmo sentido e com a mesma capacidade que o restante da sociedade.
  • A tecnologia é como um trilho sobre o qual devemos conduzir aprendizados básicos.
  • A tecnologia representa uma alavanca de oportunidades que potencializa conhecimentos, avanços e inovações.

Para Trujillo, “a tecnologia como substituição pouco contribui, mas a tecnologia como extensão permite chegar onde antes não era possível”.

A experiência de aplicação de novas tecnologias em sala de aula

Pedro Jara é coordenador de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) do Real Colégio Escuelas Pías San Fernando, uma escola de grande porte em Madri, na Espanha. A partir dessa realidade, ele compartilhou os principais aprendizados que a instituição obteve a partir do uso de tecnologias em sala de aula no primeiro ano da pandemia de Covid-19.

  • Para aplicar as novas tecnologias em uma escola com sucesso, a primeira coisa a se pensar é a formação de professores. Essa é a base de tudo. E isso foi corroborado pela pandemia. Somente em centros onde os professores tinham formação em tecnologia as aulas virtuais deram certo e puderam ser bem aproveitadas pelos alunos.
  • Ter um habitat e uma experiência de uso e prática de aprendizagem digital ao longo dos anos também contribuiu para o sucesso das escolas. Nos locais em que os professores e alunos estavam familiarizados com a aprendizagem digital e com metodologias ativas, as coisas foram muito mais fáceis.
  • É preciso pensar além dos dispositivos, levando em conta ambientes digitais que possibilitem o trabalho e a comunicação por meios e metodologias amigáveis.
  • Os alunos devem ser acompanhados, constantemente monitorados pelo corpo docente e avaliados frequentemente para que se determine o que está funcionando ou não.
  • Promovemos a aprendizagem invertida com bons resultados.
  • Os alunos mais prejudicados são os do jardim de infância e do ensino fundamental, pois eles dependem muito dos pais e a atenção deles às telas é extremamente descontínua. Eles são os que mais sofreram com o isolamento e a falta de socialização.

Em suma, os centros educacionais espanhóis que melhor lidaram com o ensino à distância foram aqueles cujos professores tinham melhor formação; aqueles que tinham uma cultura digital anterior à pandemia; aqueles que combinaram tecnologias com metodologias que estimulavam a pensar, criar e colaborar; aqueles que se ativeram à parte essencial do programa de ensino; aqueles que contaram com avaliações frequentes; e aqueles que dedicaram atenção especial às crianças menores.

“Descobrimos que os programas de ensino são muito longos, então aprendemos a nos concentrar no básico e criar nossos próprios materiais com base no essencial”, conta Jara.

Como aproveitar os aprendizados do período de pandemia?

Augusto Ibáñez lançou a provocação para os três palestrantes: Como aproveitar os aprendizados do período de pandemia?

O professor Francesc Pedró afirma que é preciso alcançar a fluência necessária para aplicar as novas tecnologias onde forem eficazes e puderem complementar a aprendizagem. As soluções tecnológicas devem estar presentes apenas se puderem contribuir de alguma forma.

“Os professores devem ter mais tempo para formação e reflexão. Não podemos exigir as capacidades de transformação, adaptação e formação contínua de um educador se ele não tiver tempo para alcançá-las. Sem esse tempo, ele não terá capacidade de inovação ou transformação”, defende.

O professor Trujillo acrescenta que é importante que as escolas desenvolvam um projeto digital que atenda aos objetivos pretendidos (“o quê” e “para quê”). Depois, deve-se colocá-lo em prática.

Segundo ele, esse projeto digital deve conter três elementos básicos:

  • Dimensão estrutural: levando em conta os tempos e espaços da própria escola, bem como suas redes e dispositivos disponíveis.
  • Dimensão organizacional: a governança e gestão da escola. Isso também inclui a formação permanente de professores e a criação de redes colaborativas dentro e fora da instituição.
  • Dimensão pedagógica: reflexão sobre os modelos de aprendizagem que deveriam ser híbridos e os que já o são há muito tempo. As tecnologias devem ser apenas um apoio para novas estratégias de aprendizagem e para facilitar a inclusão. A tecnologia deve promover a inclusão, não o contrário.

Para finalizar, o professor Pedro Jara comenta que, em sua escola, pretende-se introduzir metodologias ativas que envolvam os alunos. A tecnologia deve ajudar nisso; caso contrário, dispositivos/redes não serão usados.

Isso também afeta a formação necessária e vital de professores, que foram educados por métodos e formas não presenciais e com pouco conhecimento sobre ambientes digitais. Essa formação deve ser planejada e permanente, a longo prazo, ministrada por professores com experiência em sala de aula e experiências compartilhadas de boas práticas.

Perdeu os seminários anteriores? Neste link é possível rever como foram os primeiros encontros, além de conferir a programação completa dos próximos webinários.

Assista ao webinário completo:

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