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O que é educar a partir da ética do cuidado?

8 de dezembro de 2020 Ouvir o texto

Em novembro, ocorreu o segundo encontro virtual do programa Conversas sobre Educação para uma Cidadania Global Significativa, da Fundação SM, que tratou sobre “Educar a partir da ética do cuidado”. A mediação foi feita por José Maria González Ochoa, diretor de Programas da Fundação SM, e participaram Irene Comins, professora de Filosofia na Universidade Jaume I, em Castellón, na Espanha; Dori Montejo, chefe do Departamento de Orientação do Colégio Montpellier, em Madri; Luis Aranguren, filósofo, docente e autor do livro “É nosso momento. O cuidado como desafio educativo” (disponível em espanhol); e Consuelo Santamaría, professora do Centro de Humanização da Saúde.

As circunstâncias especiais que estamos vivendo por causa da pandemia têm nos ajudado a perceber a importância dos cuidados essenciais. Dessa forma, reconhecemos a tarefa fundamental dos nossos pais e, de maneira muito especial, nesses tempos marcados por um vírus letal, a dos profissionais de saúde e daqueles que cuidam dos idosos nos lares e clínicas particulares. Por fim, reconhecemos a tarefa daqueles a quem tanto devemos socialmente por terem feito da educação sua vocação nas salas de aula: professores que cuidam dos outros e de si mesmos, que ensinam a seus alunos o cuidado para uma vida sustentável e um planeta habitável.

Afinal, o que é a ética do cuidado?

O filósofo e matemático colombiano Bernardo Toro destaca a necessidade de uma mudança no paradigma educacional por meio da ética do cuidado. Uma vez que o paradigma do sucesso adotado pela sociedade até hoje, que dá foco a ganhar, acumular, ser importante, nos põe em perigo como espécie humana e põe em perigo o planeta que habitamos.

Como resolver esse problema? Com o novo paradigma do cuidado, o qual implica uma nova ética: a ética do cuidado.

A ética do cuidado baseia-se em três valores fundamentais: saber cuidar, saber realizar transações em que ambas as partes ganham (ganha-ganha) e saber conversar. O cuidado é o centro desse paradigma e tem uma função dupla: evitar danos futuros e reparar os danos passados.

O cuidado na sala de aula

A ética do cuidado é complementada por uma verdadeira educação para a paz e pela adoção de uma ética prática. Irene Comins recordou que o conceito de “cuidado” surgiu em um contexto que se aplicava somente às mulheres, como o desenvolvimento de certos valores necessários para cuidar do lar. Entretanto, a educação desempenha um papel fundamental para eliminar essa carga de gênero do conceito de cuidado. O cuidado deve ser incluído na educação como um fim, um objetivo de ensinar o cuidado de si mesmo, o cuidado dos outros e o cuidado do planeta. Ele também atua como um meio, uma metodologia em que a atenção e o cuidado do aluno e da turma sejam essenciais.

Dori Montejo falou sobre o quanto é importante lidar com os alunos e alunas em cinco dimensões: a corporal, integrando corpo e alma para que façam parte de um todo; a intelectual, trabalhando o mundo das ideias e dos pensamentos; a emocional, ou seja, a importância de educar as emoções; a social, já que nossa vida se desenvolve no relacionamento com os que nos cercam; e a espiritual, como um conceito mais global, não apenas confessional.

Mudança de paradigma

O professor Luis Aranguren reforçou que a crise provocada pela pandemia do coronavírus está nos alertando sobre nossos próprios limites. A ética do cuidado coloca a vida sustentável, a vida ajustada às nossas necessidades, no centro das preocupações. É necessária uma mudança de paradigma educacional, considerando duas questões básicas: para quê e a partir de onde educamos.

Como realizar essa mudança? Levando em consideração duas verdades básicas. A primeira é que todos os seres humanos são interdependentes, e daí surgem várias aplicações para a sala de aula: o reconhecimento necessário, especialmente de quem é invisível na sala; o reconhecimento da diversidade favorecendo a inclusão de todos e todas; a promoção da cultura do cuidado em nossos espaços educativos; e a redescoberta da educação como forma de acompanhamento no desenvolvimento da vida.

A segunda verdade é que o ser humano depende da ecologia, e isso significa uma educação que nos faça reconhecer que somos parte da Terra, não seus donos.

Como vincular a ética do cuidado à cidadania global?

A cidadania global está sendo transformada em cidadania ecossocial por meio da ética do cuidado. A cidadania global surge em meio a uma grande crise econômica e política, bem como mudanças climáticas e a pandemia de coronavírus. É por isso que falamos de cidadania ecossocial, que complementa a tradição de cidadania global, cosmopolitismo cívico e amizade social.

A ética do cuidado vincula a ética da justiça e a ética do cuidado, tradicionalmente separadas, como recordou Consuelo Santamaría. Ela enfatiza que as habilidades emocionais — empatia, cuidado com as palavras, saber ouvir, pedir perdão — formam uma cidadania global onde o ecológico não é mais um apêndice, mas algo essencial que compõe uma cidadania global.

Concluindo, a cidadania pode ser definida como o processo de cuidarmos uns dos outros e cuidarmos do planeta. O cuidar nos oferece uma visão da cidadania sob a perspectiva da responsabilidade, o que nos leva a uma cidadania participativa, que se envolve e pode ser um agente de mudança.

Agenda: Confira a programação completa dos próximos encontros

 

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