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Como resistir aos muros da escola

5 de dezembro de 2017 Ouvir o texto

Essa é uma boa provocação. A escola está cercada por muros, cercas, cadeados, concertinas, guaritas. Não muros figurados, mas muros concretos, duros, feios, opressivos. Mais do que “guardar a escola”, “proteger os alunos” ou “defender o patrimônio da escola”, esses muros são também simbólicos. Eles impedem que as crianças e jovens vejam suas casas, suas ruas, sua cidade. Eles proíbem que a comunidade conheça o pátio, as salas de aula, a biblioteca, a quadra. E pior, eles separam a escola da vida real, como se fosse possível criar um “mundo paralelo” dentro dos muros da escola.

São pais e mães que ficam encostados do lado de fora destes muros, esperando para falar com a diretora, entregar um aviso, buscar seu filho. São profissionais da saúde que não conseguem falar com a coordenadora. São os familiares dos professores que não podem entrar para encontrá-los. E estamos falando de muros nas escolas públicas, espaços coletivos, de todos. De todos? Certamente não.

Resistir aos muros das escolas é entender que o território é formador, que as ruas têm histórias, as casas têm vida e todos têm profundas raízes que se entrelaçam, lá no fundo, com as raízes da escola. Mas estas raízes comuns não conseguem brotar, gerar folhas e frutos, porque são cimentadas pela cultura opressiva dos muros. Imaginem uma escola que fica na comunidade, como uma praça aberta, integrada na paisagem daquele lugar, daquela terra, em que existem culturas, casos, músicas, histórias, poemas; em que existem pessoas que conhecem os alunos e os viram crescer.

Quando os alunos entram na escola e os portões são fechados e trancados, uma parte da história de cada um fica lá fora. Os estudantes não se reconhecem naquele lugar que fica tão perto da casa deles, em um ambiente que muitas vezes tem ritmos e falas estranhos e dissonantes dos ritmos e falas que eles trazem.

Não é só utopia, mas é utopia também. Porque sonhos e utopias nos movem, nos tiram do lugar. Ao olhar a escola do lado de dentro, podemos pensar “como seria se este portão não existisse?”; ou “e se os portões ficassem abertos?”. Para dar o primeiro passo em direção ao portão destrancado, é preciso um projeto pedagógico que tenha a concepção da educação integral, que parta do princípio de que nós todos estamos nos formando o tempo todo, que nossas histórias vão para a escola junto com a gente – alunos, professores, merendeiras, pais, diretores. Nós estamos lá e cá, e o projeto pedagógico da escola, quando construído inspirado na concepção da educação integral, começa a enxergar os espaços com outros significados.

Podemos começar abrindo os portões, depois retirando-os, depois criando um canto de leitura para pais e mães lerem um pouquinho antes dos filhos chegarem, plantando uma árvore para dar sombra para todos, e convidando os líderes comunitários para uma conversa com a comunidade escolar sobre os problemas do bairro. Tantas ideias que não se concretizarão se forem espontaneístas ou desorganizadas. Esta sensação de pertencimento da escola ao lugar onde ela foi construída, ao território, deve vir embasada e construída a partir de leituras, assembleias, pesquisas, e da escrita rigorosa do PPP (Projeto Político Pedagógico), que vai guiar e dar segurança a esse movimento ousado e transformador de resistência aos muros. Se entendermos que a escola é espaço de conhecimento, de cultura, de diálogo, de entender o mundo e se entender no mundo, saberemos que muros não fazem sentido.

Ali, na escola, muros significam separação, gueto, solidão. Tudo que a educação não é. A escola tem de ser o espaço de união, de alteridade, de igualdade e do coletivo. Porque nestas condições acontece o conhecimento, a reflexão e a criação.

 

Pilar Lacerda é Diretora da Fundação SM

*Este texto foi publicado originalmente no livro Resistir até que existam territórios férteis, organizado pela Virada Educação. Você pode ler e fazer download do livro na íntegra, gratuitamente, aqui: http://viradaeducacao.me/assets/livretos/resistir-ate-que-existam-territorios-ferteis.pdf

Ilustrações de Rayssa Oliveira.

 

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