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O mundo sitiado?

12 de junho de 2020 Ouvir o texto

Por Farah Hallal 

Em dezembro de 2019, o mundo que conhecíamos estava começando a sair de seu eixo, mas poucos imaginavam o que estava por vir. Em janeiro, Wuhan virou de cabeça para baixo, mas o problema estava longe, pouco nos afetava. Quando o coronavírus chegou à Europa e vimos que os superpoderes que o Eurocentrismo nos deu não eram capazes de deter o número de mortes, percebemos que a situação era muito grave.

A Covid-19 desafiou todos os protocolos, previsões e estatísticas que regiam a economia, a saúde, a educação, o turismo, a imigração legal e ilegal, os ataques terroristas, os crimes… em suma: ela desafiou tudo e todos. Foi então que nos vimos forçados a nos isolarmos em casa. Mas, como viver assim, nós que nunca tínhamos visto o mundo sitiado?

Conheci a Federação de Mulheres Progressistas e a Associação Alanna assim que cheguei à Espanha e em pouco tempo comecei a colaborar com o programa Cordão Umbilical, que é um espaço de incentivo à escrita e à leitura destinado às mães e suas filhas e filhos.  Desde fevereiro de 2019, trabalhamos com textos literários infantis e atividades de pós-leitura. De mãos dadas com a criatividade, exploramos a sensibilidade artística visual e escrita, bem como o autocuidado, a comunicação e manifestações de afeto na família, a separação e o luto, entre muitos outros eixos transversais.

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Mas chegou a fase de confinamento. O que poderíamos fazer? O que mais? Compartilhar um arquivo no grupo do WhatsApp e comentar sobre a crise na saúde? No entanto, quando o pico de número de mortos superou qualquer expectativa na Espanha, o grupo ficou mudo. Era óbvio que as mães estavam lidando com essa realidade em seus próprios espaços de sombra e, como eu fazia o mesmo, não me surpreendi. Por isso, pareceu uma boa ideia fazer chamadas de videoconferência. Pensamos que isso poderia surpreender as crianças como Gloria* (6 anos) e Theo* (5 anos). Mas quem é Gloria e quem é Theo?

Gloria é uma menina que vive feliz. É sempre amigável, expressiva, generosa e gosta de compartilhar. Não importa se vocês acabaram de se conhecer — ela vai interagir com você como se te conhecesse a vida toda. Já Theo é sempre evasivo, arredio, solitário. Prefere ter seu próprio espaço para brincar com seus brinquedos, sem precisar revezar. Ele não gosta de ser contrariado e mostra a você, dia e noite, o quanto está chateado com a vida. No começo foi um desafio, mas, com o tempo, ele começou a me confiar seus sentimentos, como se fôssemos amigos íntimos. A realidade é que, para algumas pessoas, o mundo já estava de ponta-cabeça muito antes da imposição do #fiqueemcasa.

Na videoconferência que fez comigo, Theo me contou suas preocupações. Estávamos na fase mais difícil do confinamento. Ele achava o comportamento da sua mãe tão estranho (eles não podiam sair e ninguém podia visitá-los!) que parecia começar a duvidar dela e de suas intenções. Pelo que ele me contou, perguntei a mim mesma se Theo sentia-se sequestrado. Ele sentiu um certo alívio quando lhe expliquei o motivo de sua mãe estar se comportando daquela maneira. Até então, Theo tinha ouvido uma única versão dos acontecimentos, e tudo estava tão fora da sua rotina que o menino vivia em um estado de extrema ansiedade e insegurança. Isso é muito compreensível, certo?

Então surgiu a ideia de escrever o conto. Ninguém havia lhe fornecido uma explicação convincente ou completa até aquele momento! Ele tinha tido uma única fonte de informações e teria que ser muito tolo para acreditar nela! A polícia vai te multar se você sair de casa? Você tem que usar uma máscara para ir exclusivamente ao supermercado? É sério? Essas afirmações eram tolas demais para alguém acreditar nelas. Mesmo alguém com apenas cinco anos de idade.

Essa é a história por trás do conto O mundo de ponta-cabeça?. Um conto que nasceu como uma explicação imprescindível para crianças abaixo de sete anos de idade, mas que transmite uma mensagem de esperança a pessoas de todas as idades: o amor nos manterá de pé.

Mas como fazê-lo chegar a um número cada vez maior de pessoas? Que aspiração! Se a Covid-19 conseguia chegar, por que não esse conto?

Aqui entra a Fundação SM, que promove a pesquisa e a criação de programas no campo educacional em dez países da Ibero-América (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, México, Peru, Porto Rico e República Dominicana), sendo o incentivo à leitura e à escrita uma de suas prioridades. Por isso foi tão acertado reunir esforços para criar o Projeto Scherezade, que consiste em criar espaços íntimos de leitura e atividades nas famílias, visando fortalecer o sentimento de unidade e segurança no ambiente familiar. Graças à sua presença em nesses países, a Fundação SM faz com que cada vez mais pessoas vivam esta situação atual, nada natural, com um toque de esperança. E foi graças à Fundação que pudemos contar com a talentosa ilustradora Bea Lozano. Seu traço minimalista e comovente resultou em uma proposta criativa que toca diretamente o coração.

Há quase dez anos, minha amiga Cristiane Grando me fez entender que “traduzir é amar”. Pensando nisso, queremos que famílias de todas as partes encontrem consolo e esperança no Projeto Scherezade. Graças ao apoio amoroso das escritoras e tradutoras Cristiane Grando (Brasil), Meg Petersen (Estados Unidos), Geraldine de Santis (RD/Itália) e Espérance Aniesa (França), o conto ¿El mundo de cabeza? foi traduzido para o português, o inglês, o italiano e o francês. E ainda será traduzido em outras línguas! Sim, o amor é contagioso!

Tudo que nos resta, a nós que colaboramos para tornar esse sonho possível, é que cada vez mais pessoas compartilhem O mundo de ponta-cabeça? com os seus. Enquanto nosso conto estiver percorrendo as redes e alcançando o coração de meninos e meninas, temos a oportunidade para semear a esperança. Já não se trata apenas da Covid-19. Mas, graças a esse vírus, vimos que é fundamental promover, em nossos pequenos, uma resposta resiliente perante as adversidades.

 

* Os nomes foram alterados para proteger a identidade das crianças.

 

Ficha técnica:

Título original: ¿El mundo de cabeza?

Autora: Farah Hallal

Ilustração e animação: Bea Lozano e Cuantik studio

Instituições que colaboraram para o projeto: Fundação SM, Alanna, Mulheres Progressistas

Tradutores:   

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