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Raví*: aquele que ilumina o nosso fazer com seus raios de sol

9 de junho de 2020 Ouvir o texto

Por Paula Vasconcelos Pereira**

Sou gestora em uma escola municipal de Educação Integral e Democrática em tempo integral que valoriza o desenvolvimento do estudante em sua integralidade, dando-lhe liberdade para protagonizar, expor seus pensamentos, desejos e, principalmente, compartilhar seus sentimentos. Na nossa escola, a criança pensa, respira, chora, ri, se preocupa e se angustia também, e para que tal aconteça buscamos proporcionar a escuta e saber o que a criança tem a dizer.

Estamos vivendo um tempo muito difícil, onde tudo mudou da noite para o dia. Costumo dizer que o sentimento mais forte em mim é que chegou um “desconhecido” e nos levou tudo, e que até agora estamos atônicos. Muitas coisas nos foram tiradas, tais como a nossa rotina, a nossa convivência e a socialização presencial diária com o outro. Agora eu pergunto: O que a criança perdeu? O que a criança está sentindo com relação a esse cenário?

Essas perguntas têm sido muito presentes nos grupos da nossa escola para as famílias e crianças, que se expressam de várias formas, utilizando diferentes linguagens. Por sorte, esses modos de expressão o “desconhecido” não pôde lhes roubar.

Eu, como gestora, tenho um grupo com 172 pais e mães, que dialogam diariamente, relatam as suas angústias, preocupações, realizam vendas entre si, fazem doações, enfim, um ajudando o outro neste momento inoportuno. Um desses relatos, soou em minha mente como o címbalo que retine e aqui compartilho.

Uma mãe relatou que seu filho assistiu a um vídeo que anunciava que somente daqui a dois anos a população estaria segura do vírus. Certo dia, após acordar de uma soneca, ele a questionou com relação ao tempo, pois disse que tinha a sensação de não estar aproveitando o tempo. A mãe achava que a conversa havia terminado, mas não! O coração daquela criança de 8 anos se enchia de preocupação e mesmo brincando com sua irmãzinha os seus pensamentos não foram interrompidos, pois retornou e perguntou: “Quando eu retornar à escola, eu estarei no 2° Ano ou no 3° Ano?”

Sua mãe, com toda a honestidade, respondeu que não sabia como tudo iria ficar. Essa resposta não foi suficiente para o nosso pequeno Raví. Ele queria falar o que estava lhe incomodando e relatou à mãe que o seu desejo é estar no 2º Ano, porque não estudou e nem o conheceu direito. Quando li esse relato, pedi que Raví desenhasse o que estava sentindo sobre tudo isso, pois estamos ouvindo muitos adultos e precisamos dar voz às crianças que também estão sendo muito afetadas nesse processo.

Mais uma vez fui surpreendida por Raví, que não fez um desenho, senão três desenhos e me enviou quatro mensagens de áudio, o que mexeu demais comigo.

Raví explica seus desenhos

Eu fiz três desenhos: um do passado, um do presente e um do futuro.

O primeiro é a gente na escola antes da Covid-19

O primeiro é a gente na escola antes da Covid-19

 

O segundo é a gente dentro de casa, enquanto a Covid-19 está por aí.

O segundo é a gente dentro de casa, enquanto a Covid-19 está por aí

 

O terceiro é a gente na nossa escola e a Covid-19 derrotada e eu pedindo pra voltar pro 2° ano.

O terceiro é a gente na nossa escola e a Covid-19 derrotada e eu pedindo pra voltar pro 2° ano

Raví completa: Eu não sei como vai ser o 3° ano, então é melhor voltar para o 2° ano, porque eu quase não me acostumei muito ele (o ano letivo).

Contei a ele que os seus desenhos e suas palavras me fizeram chorar e ele, com toda a sinceridade genuína das crianças, me respondeu: Não chora professora Paula, eu também tô com saudades dos bichos, da escola e da merenda.

 

Não tem como não se emocionar com relatos como esse. Sei que a nossa secretaria de educação, gestores, pedagogos, professores e toda a equipe escolar estão fazendo o possível para amenizar o caos que se instalou na pandemia. Tenho visto o esforço dos nossos professores para alcançar as crianças que são desprovidas de internet, fazendo inclusive delivery para entregar atividades, materiais escolares e até cestas básicas.

Temos um inimigo invisível, porém tem um grande exército de educadores crescendo em todo o Brasil, onde as dificuldades e os desafios não irão nos paralisar ou fazer-nos retroceder, pois estamos mergulhados em sentimentos de amor, compaixão e justiça. Como já dizia Paulo Freire, “AMAR É UM ATO DE CORAGEM” e não podemos “FALAR DE EDUCAÇÃO SEM AMOR”.

Nós só queremos estar, de alguma forma, junto dessas famílias para que elas não se sintam abandonadas e excluídas. Queremos que elas saibam e sintam que a escola, mesmo com o isolamento social, está presente para elas por meio dos meios de comunicação, não para cobrar atividades ou sobrecarregar crianças e pais com conteúdo. Queremos que essas famílias se sintam abraçadas e acolhidas neste momento, no qual muitas estão vivendo lutos, perdas, desemprego e outros.

E a aprendizagem?

Creio que todos estamos aprendendo muito, pois essa aprendizagem vai além do currículo e seus conteúdos. Estamos aprendendo a valorizar e fortalecer o espaço escolar, a família, a comunidade, o ser humano e, principalmente, a valorizar o profissional da educação. Reconhecendo que todos precisam uns dos outros e que ninguém é desnecessário.

Enquanto isso, como fica o principal questionamento de Raví?

Estarei no 2° ano ou no 3° ano?

Eu também não sei como tudo isso vai acabar, meu pequeno Raví. A única coisa que sei é que você tem o direito de viver o 2° ano em sua totalidade.

Talvez seja mais fácil para nós, adultos, o entendimento de que as aulas em casa são dias letivos, mas para Raví, não.

Ele só quer poder viver, experimentar e sentir o 2° ano, pois não teve oportunidade de se “acostumar”, de explorar, criar, produzir no coletivo, vivenciar as tão desejadas oficinas como de costume. Quando relata sobre a merenda, é a saudade do tempero das nossas manipuladoras de alimento, dona Graça, dona Gilda e dona Karla. São coisas tão simples para alguns, mas tão ricas para uma criança.

E quantos Raví temos neste Brasil a fora, sofrendo com esses questionamentos que invadem esse pequeno coração?

Espero que de alguma forma possamos ajudar os “Raví’s” a encontrarem suas respostas, motivando-os a terem esperança, a acreditar que há um futuro que os espera, e que possamos preparar um lindo retorno pós-pandemia.

 

 

* Raví significa sol, por isso o título.

** Paula Vasconcelos Pereira é diretora na Escola Municipal Professora Maria das Graças Andrade Vasconcelos, em Manaus.

A cidade de Manaus foi uma das primeiras capitais brasileiras a vivenciar o colapso do sistema público de saúde em virtude da pandemia provocada pela Covid-19. Até a data da publicação deste artigo, a capital do Amazonas registrava mais de 48 mil pessoas diagnosticadas com o novo coronavírus e mais de 1,4 mil mortes em decorrência da doença (Fonte: G1 Amazonas).

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