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“Temos que tirar nossos filhos de suas cavernas digitais”, afirma Catherine L’Ecuyer

18 de dezembro de 2017 Ouvir o texto

Se estivesse viva, é provável que a arquiteta italiana Lina Bo Bardi festejasse os debates calorosos que aconteceram na antiga Fábrica de Tambores da Pompeia, transformada por ela no emblemático Sesc Pompeia. Nos últimos dias 12 e 13 de dezembro, o teatro do Sesc sediou o SIEI – Seminário Internacional de Educação Integral, realizado pela Fundação SM em parceria com a Fundação Itaú Social, que reuniu especialistas de diferentes localidades e áreas da Educação para debater o tema “Desenvolvimento integral e a Aprendizagem: o mesmo direito, várias realidades”.

Um dos destaques do evento, a palestra “A importância de educar na atenção” foi ministrada pela canadense Catherine L’Ecuyer (autora do livro Educar na curiosidade), que instigou a plateia a refletir sobre a importância de apresentar a realidade para os pequenos, a influência da tecnologia na aprendizagem, os conceitos de curiosidade e de “assombro”.

Em entrevista para o site da Fundação SM,  que você lê a seguir, L’Ecuyer desenvolveu alguns dos pontos tangenciados durante sua apresentação no SIEI. Boa leitura!

Fundação SM – Como podemos caracterizar a curiosidade na infância?

Catherine L’Ecuyer – Não se infunde a curiosidade nas crianças, isso é algo inato. Todos nascemos com a curiosidade, com o “assombro”. O “assombro” diante da realidade é o que faz com que nos interessemos pela realidade, estejamos abertos. Platão dizia que o “assombro” é o início da filosofia.

 Em sua palestra, a senhora relacionou o uso dos meios digitais com o mito da caverna. Poderia desenvolver um pouco mais esse ponto?

Catherine L’Ecuyer – Na caverna de Platão existem personagens aprisionados, que olham para sombras em uma das paredes. Atrás deles estão objetos que eles não veem, que recebem luz de uma fogueira, e que têm a sombra projetada na parede que eles estão olhando. Essas sombras são reais? Sim, claro. Porém, não tão reais como os objetos que dão origem a essas sombras. Com o mundo digital ocorre algo semelhante. É real, porém é o reflexo de algo ainda mais real. O problema não acontece quando nossos filhos veem sombras, acontece quando passam a vida toda olhando para elas e não sabem como são os objetos reais. Ou pior, quando mal saem da caverna para ver a beleza da realidade. Muitas crianças conheceram a realidade por meio do mundo digital. Temos que tirar nossos filhos de suas cavernas digitais. Hoje, as crianças têm um déficit de realidade. Temos de preencher suas vidas com realidade.

Como conciliar a curiosidade das crianças pelas telas e a necessidade de viver a realidade?

Catherine L’Ecuyer – Mais do que curiosidade, eu falaria de fascínio. O “assombro”, a atenção sustentada, são fenômenos ativos. Por outro lado, o fascínio é algo passivo. É importante que nossos filhos desenvolvam uma atitude ativa para aprender, que eles mesmos tomem as rédeas e sejam protagonistas.

A senhora disse que “está convencida de que a crise da educação é uma crise de atenção”. O que isso significa?

Catherine L’Ecuyer – Quando a criança é bombardeada com estímulos contínuos, se acostuma com a motivação externa e seu “assombro”, sua curiosidade ficam adormecidos. Então, desaparece o motor interno que a leva a fazer descobertas. Ela deixa de prestar atenção ativamente e se torna desatenta, entediada, ansiosa, hiperativa… Busca sensações novas, ritmos cada vez mais rápidos, fica viciada em velocidade. Eventualmente, a criança não está adaptada à realidade e deixa de prestar atenção, porque a realidade é lenta e exigente, e tudo a aborrece. Essa situação não favorece a aprendizagem, porque para aprender é preciso saber como prestar atenção. Sem atenção, sem sentido, não há aprendizagem.

Quais são as consequências de uma educação, ou de uma formação, marcada pelos signos da velocidade e do virtual? Os dispositivos tecnológicos viciam?

Catherine L’Ecuyer – Os dispositivos tecnológicos são altamente viciantes, pois introduzem a criança em um círculo de recompensas, que se dá por meio da produção do hormônio da dopamina. Por que os neuropedriatras geralmente não fazem diagnósticos observando uma criança com suspeita de TDAH [Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade] diante da tela? Pois consideram que esta é uma situação artificial, passiva. O que acontece diante da tela – e agora falo principalmente em relação às crianças menores, em que o cérebro é imaturo – é fascínio e não atenção sustentada.

E como podemos preparar as crianças para o uso adequado da tecnologia?

Catherine L’Ecuyer – Temperança, sentido de intimidade e discrição, força e autocontrole, por exemplo, são qualidades que permitem que uma pessoa navegue de forma responsável. A melhor preparação para o mundo online é o mundo offline, o mundo real.

De que maneira a escola e o professor devem proceder para educar as crianças para a atenção e propiciar o “assombro”?

Catherine L’Ecuyer – Educar no “assombro” é partir do desejo de conhecer, do interesse da criança por aprender, envolvê-la em um ambiente que respeite esse interesse, considerando seus ritmos, etapas da infância, necessidade de silêncio, de mistério, de beleza.

Por Priscila Fernandes.

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