Voltar

É preciso uma aldeia inteira

8 de outubro de 2016 Ouvir o texto

“(…) relativamente à criança, a escola representa de certa forma o mundo, ainda que o não seja verdadeiramente. Nessa etapa da educação, uma vez mais, os adultos são responsáveis pela criança”. Hannah Arendt, A crise da Educação.


 

É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Bastante ventilado nas comunidades educativas, o provérbio africano seria uma outra maneira de reverberar as palavras da filósofa alemã, Hannah Arendt, sobre a premência de responsabilização coletiva pela aprendizagem de crianças e adolescentes. Se pensarmos que a vida em família, a partir do século 20, ganha uma nova ordenação, pautada por demandas econômicas que absorvem a força de trabalho dos pais em período integral, veremos que essa necessidade de envolvimento de toda a comunidade na educação é cada vez mais urgente.

Nesse sentido, a escola exerce um papel fundamental como agente educadora e elo entre crianças e adolescentes, sociedade e entorno. Em uma concepção formal, essa “dissolução” dos muros da escola exige a ampliação do olhar para os significados de educação e de aprendizagem. Qualquer pessoa é capaz de gerar e compartilhar saberes? É possível aprender em qualquer lugar ou situação? Ou a aquisição do conhecimento estaria restrita à sala de aula?

Antes de qualquer tentativa de resposta, é preciso esclarecer que essas interrogações não pretendem invalidar a importância da instituição escolar. Ao contrário, assim como Hannah Arendt, acreditamos que a escola deva ser um importante veículo de aquisição de conhecimento e inserção no mundo. Nos tempos atuais, o conteúdo clássico difundido no currículo escolar é o capital cultural e intelectual que servirá como passe social. Porém, a conformação da sala de aula como único espaço de aprendizagem já não basta para as demandas do século 21.

Em pauta em grande parte dos debates atuais sobre políticas públicas de educação, o conceito de educação integral propõe, exatamente, uma mudança de paradigma e a reconfiguração das noções de aprendizagem e de escola, sob a perspectiva de que o desenvolvimento integral acontece ao longo da vida, em dimensões diversas, promovido por todas as experiências educativas com as quais se entra em contato.

No entanto, de forma geral, a associação mais costumeira e imediata ao pensar em educação integral diz respeito ao tempo. Isso, talvez, tenha origem no fato de termos uma escola de tempo encurtado. No Brasil, a permanência diária do aluno na escola é de quatro horas contra o mínimo de seis horas em países europeus, por exemplo. Mas não basta ampliar a duração das aulas. É preciso planejar as possibilidades educativas para além do currículo básico, incluindo temas como direitos humanos, artes, desenvolvimento sustentável e cultura de paz. Nesse contexto, cabe falar de tempo, já que a formação integral exige um período maior de permanência na escola.

O percurso em direção a uma escola brasileira de tempo integral, calcada no conceito de educação integral, teve início, em 2008, com a implementação do Programa Mais Educação, pelo então ministro Fernando Haddad, durante o segundo mandato do presidente Lula. O último saldo do programa, de acordo com o Censo Escolar da Educação Básica de 2014, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep, foi o aumento expressivo do número de matrículas em educação integral, de alunos que permanecem sete horas por dia na escola, da ordem de 41,2%, o que significa um montante de 4,4 milhões de matrículas – no censo anterior, esse valor correspondia a 3,1 milhões.

Para estar em consonância com as metas definidas pelo Plano Nacional de Educação, o País terá que se empenhar no processo de adesão ao modelo. Segundo a Meta 6, até o ano de 2024, a educação em tempo integral deverá ser oferecida a, no mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% dos alunos da educação básica. A meta estabelece, ainda, “o desenvolvimento de atividades de acompanhamento pedagógico, experimentação e investigação científica, cultura e artes, esporte e lazer, cultura digital, educação econômica, comunicação e uso de mídias, meio ambiente, direitos humanos, práticas de prevenção aos agravos à saúde, promoção da saúde e da alimentação saudável, entre outras atividades”, que devem ser “desenvolvidas dentro do espaço escolar, de acordo com a disponibilidade da escola, ou fora dele, sob orientação pedagógica da escola, mediante o uso dos equipamentos públicos e o estabelecimento de parcerias com órgãos ou instituições locais”.

Nesse ponto, existe uma grande mudança de ponto de vista, com a abertura a novas proposições pedagógicas, a validação do espaço exterior à escola para a realização de atividades, e a possibilidade de parceria com instituições do entorno para a veiculação de conhecimento. Em resumo, a comunidade é chamada a atuar em conjunto com a escola, em espaços diversos do território. E é aí que a proposta educativa pode ganhar potência e materialidade.

A articulação entre escola, comunidade e território é uma oportunidade ímpar de aproximação do conteúdo do currículo básico à realidade dos estudantes. Ao trazer para o debate os saberes, fazeres, contradições, memórias, identidades e valores comunitários, a escola deixa clara a sua opção por uma perspectiva de ser humano total, integral.

Com todas as últimas mudanças na dinâmica política brasileira, cabe a todos a responsabilidade por cobrar a continuidade do projeto de formação integral de nossas crianças e jovens. É preciso garantir uma educação pública de qualidade, baseada nos princípios da equidade e de uma visão multidimensional, em que o foco seja a plena aprendizagem e o desenvolvimento de potenciais e vocações. Conforme disposto no segundo artigo da Lei de Diretrizes e Bases da EducaçãoLDB: “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

 

maria-do-pilar-lacerda    Pilar Lacerda é Diretora da Fundação SM.

Garantia dos direitos à educação é tema do seminário Educação Integral em Debate

Matéria 20/10/2022

Educadoras(es) e especialistas discutem como a Educação Integral pode contribuir para garantir direitos diante dos impactos da pandemia nas comunidades escolares e territórios.

Saiba mais

IV Prêmio Educação em Direitos Humanos 'Oscar Arnulfo Romero' apresenta vencedores da etapa internacional

Matéria 04/10/2022

Projetos do Chile, Espanha, República Dominicana e Bolívia são os vencedores da etapa internacional do prêmio e foram anunciados no IV Seminário Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos, no Chile.

Saiba mais

Antonio Orlando Rodríguez é o vencedor do XVIII Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil

Matéria 23/09/2022

O escritor cubano Antonio Orlando Rodríguez é reconhecido por sua trajetória e vence, por unanimidade, o Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil em sua décima oitava edição.

Saiba mais

Fundação SM lança Pesquisa Jovens na Ibero-América

Matéria 22/09/2022

Evento no dia 22/09/22 vai revelar qual é a prioridade vital para mais de 90% dos jovens ibero-americanos, são suas preocupações, como eles se veem e por quais razões eles estão dispostos a emigrar.

Saiba mais

Pesquisa Juventudes no Brasil é tema de evento da Fundação Mudes

Matéria 19/09/2022

A Fundação Mudes completou 56 anos e, para celebrar, promoveu uma semana repleta de eventos voltados para jovens e educadores. O encerramento da semana de aniversário foi marcado pelo seminário “Encontro sobre Juventudes no Brasil”, que teve como tema central a Pesquisa Juventudes no Brasil.

Saiba mais

Ver mais notícias